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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

GUARDAR AS LUAS





Todos os dias

as mãos se lhe enchiam

de luas e pães

comprados no café da esquina...



Eles, os pães,

porque as luas lhe nasciam

das asas dos pássaros

quando se demoravam

sobre as reflexões

e dos olhos

dos que se cansavam

de entender



Eram luas e pães multiplicados

pela soma das ausências,

mas eram

e ninguém negaria

a solidez da sua inexistência...











Maria João Brito de Sousa - 07.01.2011 - 16.25h

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

SONETO QUE SE PREZE...




Soneto que se preze deve ter

As dez - ou doze - sílabas marcadas

Por tónicas bem fortes, rodeadas

Por átonas que mal se devem ler.


Assim é o soneto e se eu quiser

Simplificá-lo mais, fazendo quadras,

É só cortar as sílabas citadas

Até que fiquem sete pr`a escrever…


Terá, então, nascido um “sonetilho”

Todo embebido em musicalidade,

Gracioso como todos eles o são,


Do clássico soneto, único filho

E herdeiro dessa mesma qualidade

De soar tal e qual como canção…






Maria João Brito de Sousa – 01.01.2011 -12.56h






SONETO – Composição poética de catorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos…//…

Enc. Liter. – O soneto é de origem muito incerta. Uns atribuem a sua invenção aos trovadores provençais, outros a Petrarca, o qual foi, pelo menos, seu vulgarizador na Itália.

Cultivado com entusiasmo pelos poetas do Renascimento, a sua estrutura foi inserida em Portugal por Sá de Miranda. No séc. XVI, além deste poeta, trabalharam o soneto, Camões, que os fez avultar na sua obra lírica, o Dr. António Ferreira e Frei Agostinho da Cruz; no séc. XVII, Francisco Rodrigues Lobo e D. Francisco Manuel de Melo.

No séc XVIII, sobressaiu Bocage nesse género poético; os seus sonetos, perfeitos na técnica e na forma, rivalizam com os melhores de Camões.

Alguns poetas da nossa antiga colónia do Brasil, também brilharam no soneto durante essa época, merecendo menção especial Cláudio Manuel da Costa, que pertenceu à famosa Escola Mineira.

No séc, XIX, o maior sonetista, pela perfeição da forma e pela “elevação”, foi Antero de Quental, mas cultivaram esse género com êxito, João de Deus, Gonçalves Crespo, António Nobre, António Feijó, João Penha, Duarte de Almeida, Guerra Junqueiro, Eugénio de Castro, António Sardinha, Júlio Dantas, etc. e, no Brasil, Raimundo Correia, Olavo Bilac, etc.

O soneto regular é formado por quatro estâncias;

Duas quadras e dois tercetos. Os oito versos das quadras devem obedecer a duas rimas, mas tanto pode rimar o primeiro verso com o quarto e o segundo com o terceiro, como pode rimar o primeiro com o terceiro e o segundo com o quarto.

Os dois primeiros versos de cada terceto, rimam entre si e o último com o verso final, mas admitem-se outras variáveis desde que mantida uma unidade melódica.(1)

Uma regra, talvez excessiva, estabelece que cada quadra e cada terceto devem ter um sentido completo. A maior parte dos poetas, porém, ligam as quadras e os tercetos um período harmonioso e separam apenas a passagem de uma estância a outra por uma ligeira pausa.

O último verso deve exprimir um pensamento nobre,

delicado ou engenhoso que encante o espírito ou leve o leitor à reflexão.(2)

É costume caracterizar assim um bom soneto;

Deve abrir com Chave de Prata e fechar com Chave de Ouro.

Os sonetos escrevem-se em versos Decassílabos mas modernamente, já se encontram muitos em verso Alexandrino – doze sílabas métricas (3)


DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO LELLO UNIVERSAL


1, 2, 3 – Notas pessoais acrescentadas à transcrição

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A PONTA DO VÉU



Disto, que te não escondo, eu nada nego;
Nem o intenso olhar com que te fito,
Nem, vago, o esgar de dor que quase evito
E que revela o meu desassossego.

Do resto, que não disse, nem delego
Na boca de outro alguém, pois não admito
Que um outro assuma aquilo que foi escrito
No tal modo verbal que nunca emprego,

Do restante - dizia – e dessas letras
Que, em tempos, me ficaram por escrever
Nos papéis que imagino [ou vejo e sinto?],

Surge a ponta do véu que esconde as metas
Que jamais revelou mas, sem saber,
Depois te mostrará que eu nunca minto…


Maria João Brito de Sousa – 29.12.2010 – 19.01h

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

NÃO NEGO ABRIL!



NÃO NEGO ABRIL!










Não negarei Abril, que Abril sou eu

E tudo o que em mim vive e se desdobra

Como se fosse vosso o que me sobra

E o que vos sobra, a todos, fosse meu!





Não negarei o espaço, nem o céu

Ou o que há de divino em cada obra

E hei-de pagar ao mundo o que ele me cobra

Porque o que cresce em mim, de Abril nasceu.





Não nego Abril, que Abril me seduziu,

Me estendeu o seu braço companheiro

Me deu asas, canções e voz liberta!





Prometeu muito mais, mas lá cumpriu!

[nunca um Abril sozinho é derradeiro

nem liberdade é coisa sempre certa... ]










Maria João Brito de Sousa – 27.11.2010 – 21.06h

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ANJO IMPREVISTO



Sinto-te vir, mais suave do que a prece…
Volteia sobre mim, Anjo Imprevisto!
És o jorrar de um néctar que conquisto
No culminar de um corpo que adormece!

De tudo o que na vida me acontece
Sempre que o isco surge e não resisto,
És bem menos provável – nisso insisto! –
Do que um dia a romper, quando anoitece…

Portanto, anjo impossível que não esqueço,
Adeja sobre mim quando adormeço,
Conquista-me este sonho e vai-te embora!

Pois tu não sabes que eu não tenho preço,
Que acordo, me reinvento e te despeço!?
[meu assombro é lunar, não se demora...]





Maria João Brito de Sousa – 20.11.2010 – 18.03h

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A CONQUISTA DA FLOR PELA SEMENTE





Lá longe
Ecoa, indómito,
O meu grito,
Fonética estelar
Que eu dignifico
Num jogo universal que não domino

Eu desafio,
Mais do que o razoável
E seguro
Nas letras a que já perdi a conta
Das mil canções que crio e nem procuro

Tudo isto eu devo
E nada mais me move
Ou me norteia
Senão a mesma força que promove
A devoção lunar de uma alcateia

E, sobretudo,
Eu sou,
Como os demais,
Palco e passagem
Dos mil ilusionismos geniais
De uma vontade só, que é divergente,
Qual átomo lançado na voragem
Da conquista da flor pela semente!




Ao lobo que mora em cada um de nós


Maria João Brito de Sousa – 14.11.2010 – 18.19h


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

VELHA NAU



>
Neste fundo de mar me afogo e cedo
A alma à velha nau que me navega
E, tendo revelado o meu segredo,
Recebo o novo dom que ela me entrega

Fascinada por ele, só nele me enredo
E, venha o que vier, nem a refrega
Me faz voltar atrás, cedendo ao medo
Do ciclo da permuta e da trasfega…

Por mais mar que esta minha nau percorra
[pouco me importa que ela afunde e morra;
há sempre um mar que volta e outro que parte!],

Enquanto a velha nau mo permitir
Hei-de perpetuar, neste ir e vir,
Mil conquistas do Tempo pela de Arte…


Maria João Brito de Sousa