VISLUMBRES


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terça-feira, 26 de julho de 2011

SOU DO MAR!


Sou do mar na estranhíssima alquimia
Que me transforma em fogo, pedra e gente…
Mas muito mais do mar que, à revelia,
Se me sucede a cada sol nascente

Da mesmíssima força em que ele nascia
Renasce, dia a dia, o meu presente,
E sinto exactamente o que ele sentia,
E sou exactamente o que ele consente…

Sou do mar no processo indecifrável
Que admite a simbiose entre o provável
E aquilo que ninguém pode provar

Mas, fruto desse jogo, eu sou palpável
E nessa mutação, nem sempre estável,
Eu sempre acreditei que sou do Mar!




Maria João Brito de Sousa – 26.07.2011 – 13.00h

segunda-feira, 25 de julho de 2011

MADRUGADAS E OUTROS RECOMEÇOS


Fica tão triste a cor das madrugadas

Em que o sol se esqueceu de vir brilhar

E as nuvens plúmbeas descem, desoladas,

Sobre os últimos raios de luar…



Mas, em compensação, outras, ousadas,

Rompendo o escuro manto irão mostrar

O azul do céu às vidas ensonadas

Que agora mesmo acabam de acordar…



Há sempre um cravo aberto na janela

De cada madrugada que não esqueço

Nas horas de um porvir que se aproxima



E, se alguém se esquecer de olhar pr`a ela,

Eu escrevo outro poema, eu recomeço

No primeiro amanhã que nasça em rima…



Maria João Brito de Sousa – 20.07.2011 – 17.34h

quinta-feira, 21 de julho de 2011

OS NÓS DE UMA MESMA CORDA



Ele há dias assim, contraditórios,

A que podemos lá dizer que não

E, mesmo com poemas meritórios,

Julgamos ter perdido inspiração…



Já lhes conheço bem os repertórios

Por isso vos proponho a condição

De só os mencionar se abonatórios

Dos dos dias dos poemas que virão;



Lembro-me bem de um dia, era eu menina,

- só o quero lembrar porque, em crescendo,

vi bem que não seria tão tremendo… -



Em que me vi herdeira de má sina…

[e porque, volta e meia, ele mo recorda,

tento atá-lo a dois nós da mesma corda…]

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O SEM NOME


Um homem que tem nome e não tem nome

Numa terra qualquer, que não é sua,

Nuns dias a comer, noutros, com fome,

Esmolando o dia-a-dia em cada rua,



Numa busca incessante, que o consome,

Que o faz ser quem não é, que o desvirtua,

Que o leva a não saber que rumo tome

Na estrada que a miséria tornou crua…



Esse homem que partiu, talvez não volte…

Talvez essa miséria nunca o solte,

Talvez a fome o leve um destes dias,



Talvez seja mais um dos que, à partida,

Arriscaram – quem sabe? – a própria vida

Por causa do tal excesso em que vivias…






Maria João Brito de Sousa

quinta-feira, 7 de julho de 2011

REVISITAR ABRIL NO VERÃO GELADO DE 2011


Olha as ruas que o povo engalanou
Com cravos a nascerem das chaimites,
Olha as ruas que eu quero que visites
Nas imagens dos versos que te dou…

Olha as ruas e vê se já chegou
A hora libertária em que acredites,
Que não tenha lugar para os “palpites”
De quem as viu mas nunca acreditou…

Olha essas ruas cheias de vontade
De voltar a gritar que a liberdade
Está pronta pr`a tomar um novo rumo!

Olha os braços das ruas apontando
O caminho que o povo vai tomando…
E o medo há-de passar desfeito em fumo!



Maria João Brito de Sousa – 04.07.2011 – 21.04h

sexta-feira, 17 de junho de 2011

POR MAIS QUE...







Por mais que o sol se ponha, devagar,

Por mais que a estrela-d’alva me sorria,

Por mais que a lua venha iluminar

Aquilo que sobrou de mais um dia,



Por mais noite que sobre e o inundar

Da conturbada luz que me alumia

Me inspire ou mesmo tente interpelar…

Por mais que isso aconteça, eu quereria



A mesma rapidez do dedilhar

Que a mão, descontrolada, me assumia

E aquele embriagante não parar,



Para nem duvidar do que sentia,

Na galvânica pressa de acabar

O que nem começado `inda estaria…









Maria João Brito de Sousa – 16.06.2011 – 20.04h

quarta-feira, 8 de junho de 2011

DAS TOURADAS E DAS GRANDES CONVICÇÕES - Carta aberta ao meu avô Poeta


… e depois, António,

eles benzer-se-ão e partirão gloriosos

para a mortandade

sem que os tenhamos podido desculpar

e agradecerão as palmas

com a consciência do ritual cumprido

e haverá crianças

- crianças como eu era quando,

ao vê-los, fugia do ecrã da televisão… -,

haverá crianças, António,

que também baterão palmas

e que crescerão embaladas

pela apoteótica matança,

abençoadas pelo deus a que eles se confiaram

e em que eu nunca acreditarei

porque, perdoa-me, António,

eu não posso, nem quero, acreditar

nesse mesmíssimo deus cruel e estúpido,

se ele for tão estúpido e tão cruel

que abençoe a ritualização da tortura…







Ou fomos nós que

sempre estivemos enganados?

Ou fomos nós que

errámos quando condenámos a raiz comum

de todas as descriminações

e de todas as atrocidades?

Ou éramos só nós que víamos,

nos olhos do touro,

a mesma inocência dos dos cristãos novos, no Paço,

dos dos negros, nos porões das naus,

dos dos judeus, em Auschwitz,

dos dos nossos amigos, nas masmorras da Pide?



Todos diferentes, todos animais,

António…



E eu, António,

eu que, hoje, como há cinquenta anos,

os sinto, os entendo

e, do mais fundo de mim,

os tento perdoar,

não consigo deixar de condenar

essa crua faceta de tantos



tantos dos que,

caminhando sobre duas patas,

acreditam que a dor é monopólio seu

e que a racionalidade

lhes confere o direito de SERem os únicos.






TODOS DIFERENTES, TODOS ANIMAIS!





Ao meu avô, António de Sousa, Poeta, tradutor, advogado, crítico literário e um daqueles seres vivos que sempre acreditaram na sensibilidade de todos os outros.



Maria João Brito de Sousa - 07-06-2011-11:41h


[against all odds, com honras de blog principal]




Ps – Perdoa-me se te arrasto o nome para o campo de uma batalha que prevejo desproporcional, dura e infindável. Por esta altura, tu, lá na tua Ilha de Sam Nunca e eu, ainda por cá, fisicamente desgastada, pouco mais poderemos emprestar para além disto; nome e versos… mas não fomos nós quem sempre acreditou na força das convicções e das palavras que as levam mundo afora?