VISLUMBRES


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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

UM POENTE DIFERENTE, À BEIRA TEJO - Cavalo desenhado a ferro e fogo


Quis falar do Mondego e, na verdade,

É da foz do meu Tejo que vos falo

E cresce cá por dentro a voz que calo

E conta das saudades sem saudade



Solta-se o sonho oblíquo à claridade

E a linha de horizonte é um cavalo

Que não sei se lá está, se imaginá-lo

É lapso de memória ou se é vontade…



Galopa o meu poente à beira Tejo

Rumo a essas lonjuras que nem vejo

Por estarem tão além do meu futuro



Sobra então, do sonhado, o claro espanto

Do cavalo-solar que aqui levanto

E rasga, a ferro e fogo, um céu já escuro!








Maria João Brito de Sousa – 01.11.2011 – 16.00h

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A TODOS OS RESISTENTES QUE PASSARAM PELAS PRISÕES DO FASCISMO


Sobre os muros que, sem liberdade,

Te acoitaram nas lajes tão frias,

Tu escreveste a palavra VONTADE

Conquistada ao granito dos dias!



Foi a tua resposta à maldade,

À traição e às demais vilanias

De quem queria apagar a VERDADE

Desse muro em que, ousado, a escrevias!



Foram tantas palavras negadas

Que a garganta guardou da denúncia

Dos que assim te prenderam nos muros,



Quanto as dores, como pedras, caladas,

Na nobreza da tua renúncia

Semearam teus sonhos mais puros!








Maria João Brito de Sousa - 21.10.2011 - 13.48h





Imagem retirada da página criada na Wikipédia para o 25 de Abril de 1974



NOTA - SONETO DE NOVE SÍLABAS MÉTRICAS

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

UM TUMULTO A SUBIR DAS PROFUNDEZAS


Hoje, nem bem, nem mal, nem coisa alguma…

Nem o silêncio impôs a reflexão,

Nem sussurros vieram dizer não

Às minhas mãos cerradas como bruma



Dispersava-se a onda nesta espuma

Como se ao ser negada uma razão

Tudo se reduzisse à dimensão

Das batalhas perdidas, uma a uma…



Hoje… nem bem, nem mal! Ninguém diria

Que ontem saiu à rua a rebeldia

Vestida com as cores de mil certezas



Porque hoje, ao acordar, nada se ouvia…

[mas, prestando atenção, bem se sentia

um tumulto a subir das profundezas…]




Maria João Brito de Sousa - 16.10.2011


Imagem retirada da Internet, via Google

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

CIDADE SEM SENTIDO(S) - Soneto de nove sílabas métricas


Se a Cidade contasse os segredos
Das janelas fechadas dos dias
Quantos rostos e mãos não verias
Nas cortinas já gastas dos medos,

Quantos corpos em estranhos folguedos,
Quantas camas desfeitas, já frias,
Quantas mesas de pinho vazias
De uns pedaços de pão, mesmo azêdos?

Se a Cidade pudesse falar
E se erguida do chão, a gritar,
Rebentasse em protesto incontido

Levantando o seu punho no ar...
[... ah, Cidade que eu tento inventar,
nem eu própria sei dar-te um sentido!]





Maria João Brito de Sousa - 05.10.2011 - 15.03h



Imagem retirada da Internet, via Google

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

PASSATEMPO "LEMBRANDO O ALENTEJO", no Facebook


ALENTEJO



Alentejo das gentes castigadas,

Dos sobreiros reinando nas planuras

E das vozes dolentes, bem timbradas,

Que falam de alegrias, de amarguras…



Alentejo das searas espraiadas

Pl`o trigo inacabável das lonjuras,

Das casas pequeninas, bem caiadas,

Onde, à lareira, o povo queima agruras



Onde a gente se senta nos poiais

E esse pouco parece muito mais

Que o melhor que o mundo possa dar;



Vontade unida em vozes tão plurais

Faz-nos saber que não será demais

O que homens e mulheres não vão calar









Maria João Brito de Sousa – 04.09.2011 – 15.37h

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O OUTRO LADO DO POEMA


Foi do outro lado do poema

que te falei do tapete puído das metáforas

e das mãos crispadas sobre o segredo das horas

estava lá tudo isso

e ainda o que nem eu poderia decifrar.

foste tu quem o não soube ver…



resmungas?

que culpa tenho eu se a inércia te prendeu

aos floreados da capa de papel de seda,

à estampa introdutória,

à tampa do baú dos sustos insuspeitos?

que culpa tenho

se por aqui ficaste embevecido, cego, enfeitiçado?



como se a magia da forma

desistisse ali mesmo,

onde termina a aparência do poema

e onde se determina que o poema é aparência!



os poemas, incauto,

redefinem os corpos a cada por do sol

e saúdam o luar dispersos em mil faces,

mil arestas, mil vértices como punhais

que às vezes arredondam

para não ferir a lua

pois só a ela pouparão o impacto perfurante

das verdades mais cruas e vorazes



isso deverias sabê-lo tu,

não eu que nada conheço da geometria do desejo

para além da elevação do sonho

ao cubo de si mesmo

e penso vir a morrer de uma anunciada indigestão

de puríssima ignorância



mas teria sido exactamente aí,

na face que te recusaste a ler

e das profundezas que não soubeste adivinhar,

que ele te teria falado até que não pudesses suportá-lo

e o reduzisses à forma inicial

caso ele se apiedasse da tua comoção



teria sido aí

que ele te mostraria

a inevitabilidade das coisas transmutadas

pelos olhos do leitor

até ao infinitamente absurdo

que é e será sempre

a causa primeira de todos os impensáveis gestos de um poema



agora,

agora sei lá quantas luas se passaram,

quantas arestas se multiplicaram,

quantos vértices se não arredondaram

e quantos olhos, que não teus,

o espalharam por aí, em estilhaços,

na órbita irregular de todos os acasos



e tu, incauto,

ainda não compreendeste

que um poema é um poço sem fundo,

um abismo aberto sob a vertigem dos sentidos,

uma montanha invertida por escalar

e uma faca apontada ao coração do conformismo?





Maria João Brito de Sousa – 15.09.2011 – 04.42h

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

AMIZADE


A amizade não morre facilmente!
Talvez não morra nunca e permaneça
Num canteiro qualquer escavado à pressa
Pelas mãos incansáveis da semente…

Talvez o vento passe e não lamente,
Talvez a terra inteira até a esqueça…
Mas, dela, sobrará uma promessa
Que a torna intemporal e transcendente

Se ela existiu, então não terá fim
Pois ficará latente no jardim
Onde alguém a plantou em tempos idos

E se alguém me disser: – Não é assim!
Responderei: - Não falo só por mim…
Falo por quantos não serão esquecidos!




Maria João Brito de Sousa – 13.09.2011 – 16.00h