VISLUMBRES


View My Stats

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

SONETILHO DO SONHO POSSÍVEL


Andei por todos os cantos

Redescobrindo horizontes,

Vestindo todos os mantos

Das flores de todos os montes



Mergulhei nos rios mais santos,

Rumo à nascente das fontes

Que lhes dão vida, em quebrantos,

Brotando em líquidas pontes



Perfeitamente tangíveis,

De aparência cristalina,

De arcadas quase invisíveis,



Quase à dimensão divina…

[…fui mãe dos sonhos possíveis

de toda e qualquer menina…]









Maria João Brito de Sousa – 01.01.2012 – 15.07h

sábado, 31 de dezembro de 2011

A DEMISSÃO DA PALAVRA



Brotaram, de repente, absurdos gritos
Do eixo da palavra atormentada
Onde os sintomas – todos - são malditos
Prenúncios de revolta estrangulada

À digestão dos ecos mais aflitos
Por excessos duma ceia inesperada,
Somaram-se, por fim, dois sonhos fritos
À privação geral… mas consolada!

A vocalização desconstruiu-se
Na absurda convergência da partida,
E pouco a pouco, a chama consumiu-se

No pavio dessa rima destruída
[a palavra, essa, ergueu-se e demitiu-se
da principal função da sua vida…]




Maria João Brito de Sousa – 25.12.2011 –
22.55h

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

ALENTEJO II


Ó terra de oiro antigo e céu sem fim

Pontilhada de verde e de castanho,

Eu quero-te sem prazo e sem tamanho

Com este querer maior que existe em mim



Terra de ervas e flores, como um jardim

Espraiando-se orgulhoso em mundo estranho,

Subitamente a tela de um rebanho

Que, ao surgir, se nos deixa ver assim



Que o teu povo magoado te acrescente

Os laços sempre férteis da semente

E possa eternizar-te no seu "cante "



Que a tua voz se eleve eternamente,

Que seja sempre livre a tua gente

E que haja em ti fartura a cada instante!










Maria João Brito de Sousa 06.12.2011 - 15.21h

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

UM POENTE DIFERENTE, À BEIRA TEJO - Cavalo desenhado a ferro e fogo


Quis falar do Mondego e, na verdade,

É da foz do meu Tejo que vos falo

E cresce cá por dentro a voz que calo

E conta das saudades sem saudade



Solta-se o sonho oblíquo à claridade

E a linha de horizonte é um cavalo

Que não sei se lá está, se imaginá-lo

É lapso de memória ou se é vontade…



Galopa o meu poente à beira Tejo

Rumo a essas lonjuras que nem vejo

Por estarem tão além do meu futuro



Sobra então, do sonhado, o claro espanto

Do cavalo-solar que aqui levanto

E rasga, a ferro e fogo, um céu já escuro!








Maria João Brito de Sousa – 01.11.2011 – 16.00h

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A TODOS OS RESISTENTES QUE PASSARAM PELAS PRISÕES DO FASCISMO


Sobre os muros que, sem liberdade,

Te acoitaram nas lajes tão frias,

Tu escreveste a palavra VONTADE

Conquistada ao granito dos dias!



Foi a tua resposta à maldade,

À traição e às demais vilanias

De quem queria apagar a VERDADE

Desse muro em que, ousado, a escrevias!



Foram tantas palavras negadas

Que a garganta guardou da denúncia

Dos que assim te prenderam nos muros,



Quanto as dores, como pedras, caladas,

Na nobreza da tua renúncia

Semearam teus sonhos mais puros!








Maria João Brito de Sousa - 21.10.2011 - 13.48h





Imagem retirada da página criada na Wikipédia para o 25 de Abril de 1974



NOTA - SONETO DE NOVE SÍLABAS MÉTRICAS

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

UM TUMULTO A SUBIR DAS PROFUNDEZAS


Hoje, nem bem, nem mal, nem coisa alguma…

Nem o silêncio impôs a reflexão,

Nem sussurros vieram dizer não

Às minhas mãos cerradas como bruma



Dispersava-se a onda nesta espuma

Como se ao ser negada uma razão

Tudo se reduzisse à dimensão

Das batalhas perdidas, uma a uma…



Hoje… nem bem, nem mal! Ninguém diria

Que ontem saiu à rua a rebeldia

Vestida com as cores de mil certezas



Porque hoje, ao acordar, nada se ouvia…

[mas, prestando atenção, bem se sentia

um tumulto a subir das profundezas…]




Maria João Brito de Sousa - 16.10.2011


Imagem retirada da Internet, via Google

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

CIDADE SEM SENTIDO(S) - Soneto de nove sílabas métricas


Se a Cidade contasse os segredos
Das janelas fechadas dos dias
Quantos rostos e mãos não verias
Nas cortinas já gastas dos medos,

Quantos corpos em estranhos folguedos,
Quantas camas desfeitas, já frias,
Quantas mesas de pinho vazias
De uns pedaços de pão, mesmo azêdos?

Se a Cidade pudesse falar
E se erguida do chão, a gritar,
Rebentasse em protesto incontido

Levantando o seu punho no ar...
[... ah, Cidade que eu tento inventar,
nem eu própria sei dar-te um sentido!]





Maria João Brito de Sousa - 05.10.2011 - 15.03h



Imagem retirada da Internet, via Google