quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
O POEMA NOSSO DE CADA DIA
Sei-o só porque o sei e mais não digo
Que a estrofe, irredutível, se me impõe
Na estranha convicção que me propõe
E também na desculpa em que me abrigo…
Sei-o, assim, como a terra sabe o trigo
Nessa complexidade que o compõe,
Tal como a razão trai se pressupõe,
Em cada nova rima, um rasto antigo…
Sei-o de outro saber que é muito meu
A que chamo “poema” e se esqueceu
De se documentar, de ter razões
Mas, por mais que o descreva, apenas eu
Terei sentido o quanto me prendeu
Aos versos que me cobrem de ilusões…
Maria João Brito de Sousa – 21.02.2012 – 19.07h
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
(DES)ARMADOS

Armados da certeza que não morre,
Seremos sempre os filhos da verdade
E, sobre esta injustiça que nos cobre,
Semearemos cravos de vontade!
Armados, desarmados… como seja
Próprio ao desenrolar deste momento,
Anularemos jugo, insulto, inveja,
Daqueles que nos roubaram o sustento!
Cairão sob as armas que não temos
Aqueles que acreditarem que os tememos
E uns tantos que se vendem ao poder
Porque amanhã decerto venceremos
E (des)armados vamos porque cremos
Que quem de amor se armou, tem de vencer!
Maria João Brito de Sousa – 14.02.2012 – 13.38h
sábado, 4 de fevereiro de 2012
O PRODUTO FINAL DE ALGUNS ANOS PASSADOS A COLHER [também...] OPINIÕES

Como hei-de interpretar tão estranho gesto
De clara discordância e suspeição
Se, no que me respeita, é sempre honesto
Este acto de vos dar - ou não... - razão?
Tudo o que vos disser terá, de resto,
A mesma garantia de isenção;
- De quanta opinião guardar no cesto,
Construirei, mais tarde, opinião...
Se o tempo escassear, duplicarei
Em vontade o que falte às aptidões,
Em perda o que me for escapando em ganho
Mas, enquanto viver, eu escolherei
E irei sempre guardando opiniões,
Sem antes lhes medir força ou tamanho...
Maria João Brito de Sousa - 01.02.2012 - 18.57h
domingo, 8 de janeiro de 2012
O IMENSO MAR DOS SONHOS POR TECER ou metáforas e duplos sentidos

Relembro as velhas asas que não uso
Sobrevoando os medos que não tenho
Neste eixo imaginário em que desenho
Rotas possíveis para o que recuso
E, de asas a adejar, num som confuso
Em que sonho subir, recuo e venho,
Só das asas me sirvo e, se as desdenho,
É porque ser mais livre é ser recluso
E quanto mais no alto, mais rasando
O chão que aqui me vai aprisionando
Nesta terra que sou, mesmo sem ser
E quanto mais me elevo e vou voando,
Mais fundo, muito mais, vou mergulhando
Nestoutro mar dos sonhos por tecer…
Maria João Brito de Sousa – 05.01.2012 -13.13h
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
SONETILHO DO SONHO POSSÍVEL

Andei por todos os cantos
Redescobrindo horizontes,
Vestindo todos os mantos
Das flores de todos os montes
Mergulhei nos rios mais santos,
Rumo à nascente das fontes
Que lhes dão vida, em quebrantos,
Brotando em líquidas pontes
Perfeitamente tangíveis,
De aparência cristalina,
De arcadas quase invisíveis,
Quase à dimensão divina…
[…fui mãe dos sonhos possíveis
de toda e qualquer menina…]
Maria João Brito de Sousa – 01.01.2012 – 15.07h
sábado, 31 de dezembro de 2011
A DEMISSÃO DA PALAVRA

Brotaram, de repente, absurdos gritos
Do eixo da palavra atormentada
Onde os sintomas – todos - são malditos
Prenúncios de revolta estrangulada
À digestão dos ecos mais aflitos
Por excessos duma ceia inesperada,
Somaram-se, por fim, dois sonhos fritos
À privação geral… mas consolada!
A vocalização desconstruiu-se
Na absurda convergência da partida,
E pouco a pouco, a chama consumiu-se
No pavio dessa rima destruída
[a palavra, essa, ergueu-se e demitiu-se
da principal função da sua vida…]
Maria João Brito de Sousa – 25.12.2011 – 22.55h
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
ALENTEJO II

Ó terra de oiro antigo e céu sem fim
Pontilhada de verde e de castanho,
Eu quero-te sem prazo e sem tamanho
Com este querer maior que existe em mim
Terra de ervas e flores, como um jardim
Espraiando-se orgulhoso em mundo estranho,
Subitamente a tela de um rebanho
Que, ao surgir, se nos deixa ver assim
Que o teu povo magoado te acrescente
Os laços sempre férteis da semente
E possa eternizar-te no seu "cante "
Que a tua voz se eleve eternamente,
Que seja sempre livre a tua gente
E que haja em ti fartura a cada instante!
Maria João Brito de Sousa 06.12.2011 - 15.21h
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