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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

SONETO AO PRODUTOR EXPLORADO II

(Em decassílabo heróico)

Sem agasalho, quando o frio lho pede,
Nem acessórios, quando necessários,
Não diz palavra em causa que não mede
Assim que os ventos “sopram” mais contrários

E se ergue o punho contra os “salafrários”,
Ou espuma as raivas que a razão concede,
É por ter mil razões contra os salários
Que só lhe compram fome e pagam sede!

Passa, invisível, sobre o dia-a-dia,
Vai, devagar, morrendo em contra-mão,
Arremedando a velha alegoria

Que, honrando a letra de uma melodia,
Em coro nasça de uma multidão
E saiba, erguida, impor-se à tirania…




Maria João Brito de Sousa – 03.09.2013 – 19.51h


Imagem do 25 de Abril de 1974 - Partido Comunista Português

sábado, 31 de agosto de 2013

PLACEBO



(Soneto em decassílabo heróico)


Morto o tempo do tempo de lutar
Se o gesto se me esgota em vãs rotinas,
Sobram-me horas amargas, pequeninas,
Que me impõem vagar sobre vagar

Teimando, muito embora, em não parar,
Se, a cada passo, enfrento guilhotinas,
Às noites torturadas por espertinas,
Seguem-se os dias em que “estou sem estar”

Porque um estranho cansaço vertical
Me vence, toma a rédea e rouba o sal
Das horas de criar seja o que for

Pr´a me lançar, vendada, ao lodaçal
Onde insisto em escrever - mas faço mal! –
Uns versos sem coragem nem valor…


 Maria João Brito de Sousa – 30.08.2013 – 13.41h

IMAGEM - Cat - Franz Marc, 1880 - 1916

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

SONETO À CONFIRMAÇÃO DE UM DIREITO



Ao martelo. À foice. Àquilo que simbolizam.

(Em decassílabo heróico, na oralidade – El(e)El(a))


El(e) trazia na mão, cobrindo um sonho,
O cabo de um martelo… e martelava,
El(a), um arco incompleto que ceifava
Tão habilmente quanto em verso o exponho

Exploração gera dor mas, se o suponho,
Bem mais forte era a dor que se apossava
Dos que da construção, da espiga ou fava,
Cobravam tão-somente um pão tristonho

Justo é nunca esquecer quanto devemos,
Do tanto que nos tiram, mas mantemos,
Àqueles que com a vida conquistaram

O direito ao tal pão que já mal vemos
Mas pelo qual sei bem que lutaremos
Como esses que tão caro o pão pagaram!  




Maria João Brito de Sousa – 07.08.2013 – 17.19h

quarta-feira, 31 de julho de 2013

SONETO DO PRODUTOR EXPLORADO

Aos operários das fábricas e aos trabalhadores de todo o tipo de serviços. Aos trabalhadores da terra e do mar. Aos operários da palavra, da voz, do gesto e da cor.
A todos os silenciados e explorados.


SONETO DO PRODUTOR EXPLORADO

(Em decassílabo heróico)


Eu que ergui, pelas veias das cidades,
Sentinelas de pedra e de aço puro,
Que conquistei, a pulso, as liberdades
E asfaltei, com suor, cada futuro,

Eu que paguei, com sangue, as veleidades
Que registei na cor de cada muro
E sigo em frente e moldo eternidades
A partir do que engendro e não descuro,

Não mais hei-de evocar forças ausentes!
Liberto o grito, preso entre os meus dentes,
Que irrompe deste barro em que me sou

E arrancarei, de mim, quantas correntes
Me prendam à mentira, ó prepotentes
Senhores do que julgais que vos não dou!



Maria João Brito de Sousa – 30.07.2013 – 18.58h



IMAGEM- "Força" , José Viana, óleo sobre tela
Imagem retirada da página  URBANO TAVARES RODRIGUES - Escritor


Nota da autora - Um soneto que nasceu... porque "tinha de ser"...

terça-feira, 11 de junho de 2013

VIVER ATÉ AO FIM


(Soneto em decassílabo heróico)

Mal se te apague esse último imbondeiro
Em horizonte incerto, agonizando,
Entenderás que a morte foi tomando
Tudo o que a vida te ofereceu primeiro

Sem que te concedesse um só roteiro,
Sinopse ou mera guia de comando
Do tempo incerto que em te foi gastando
Sem dar-te contas de um tal cativeiro…

Só sabes que há-de vir, que a todos calha
A hora de, envergando uma mortalha,
Voltar ao barro cru que tanto amaste

Mas, por cada segundo em que ela falha,
Aproveita! Inda é vida a mão que espalha
Sementes sobre um chão que antes lavraste…


Maria João Brito de Sousa – 09.06.2013- 15.18h




IMAGEM . "Essência" - Maria João Brito de Sousa, 1999

quinta-feira, 6 de junho de 2013

SONETO A UMA OUTRA EMBRIAGUÊS





(Soneto em decassílabo heróico)


Devo dizer-vos ter julgado certo
O fim dos dias do meu “sonetar”
Que a cada instante vinha concertar
Meu muito humano e lábil desconcerto…

Hoje, porém, sem um motivo, incerto,
Sem sonho que o fizesse anunciar,
Nasce-me este, ébrio, quase a galopar
Sobre as tristezas que sentiu por perto

E, nesta força que nem eu lhe entendo,
Fez-se palavra, verso… e, num crescendo,
Impôs-se, a cores, ao cinza do costume

Assim que letra a letra foi estendendo
A melodia que, em mim não cabendo,
Jorrou qual água mas queimou qual lume…


Maria João Brito de Sousa - 29.04.2013 



IMAGEM - Três Mulheres na Fonte - Pablo Picasso, 1921

quarta-feira, 29 de maio de 2013

SONETO A UMA QUALQUER LONGA VIAGEM



(Em verso eneassilábico)

Tenho mãos, tenho pés, tenho braços
Que ergo rumo às fronteiras da vida,
Que caminham, negando cansaços,
Nesta estrada de terra batida…

Passa o tempo e devolve-me aos traços
As memórias da estrada vencida
Na cadência sonora dos passos
Pelos becos que o são sem saída…

Tanto beco e ruela já vi,
Tanta curva já fiz, sem parar,
Que, hoje, posso afirmar que é aqui,

Nas lonjuras que já percorri,
Que estes passos irão conquistar
A batalha de “eu ser” quem escolhi…



Maria João Brito de Sousa – 09.05.2013– 17.22h