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sábado, 8 de fevereiro de 2014

ESBOÇO CRIATIVO




(Em decassílabo heróico)


… e neste fim de Tejo em que me vivo,
Onde, entre verbo e dor, sei ser feliz,
Hei-de ser sempre o fruto do que fiz,
Do muito que senti, do que me privo

Se teimo em rejeitar, quando me esquivo,
Um verso que não venha da matriz
Ou negue exactamente quanto eu quis
Por não ser mais que um frágil lenitivo

E atendo ao que jamais será cativo,
Ao que é reprodução do som nativo
Que, em ondas, se espraiou desde a raiz

Porque, entre sopro e forma, eu, mero crivo,
Não traço mais que um esboço criativo
Dos versos que o poema a mim me diz…



Maria João Brito de Sousa – 28.01.2014 – 21.50h

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SONETO A UM ANTIGO/NOVO SONHO

(Em decassílabo heróico)


Eu trago um sonho antigo, omnipresente,
Como um grito vermelho no meu peito
Erguido contra a voz, que nunca aceito,
De quem a torna infame ou prepotente!

Mais alto elevo o sonho transparente,
Mais longe o levo intacto e sem defeito,
E é com el` que partilho o duro leito
Que cabe a quem não sonha impunemente…

Razões? Há tantas mil pr`a tê-lo aceso
E tantas mais crescendo, a dar-lhes peso,
Se ousamos ver a crua realidade

De quem já descobriu, mesmo indefeso,
Que um sonho, se for livre, é morto ou preso
Tão só porque evocava a liberdade!




Maria João Brito de Sousa – 04.01.2014 – 18.16h

domingo, 29 de dezembro de 2013

SONETO A UMA LONGA, LONGA INVERNIA


(Em decassílabo heróico)



Os dias são tão curtos, camaradas…

O sol começa a pôr-se… e mal nasceu

Da escuridão que esconde as madrugadas

Que Abril tão claramente prometeu…



Mas sonha-se e das cinzas apagadas,

Lampejando qual luz que não morreu,

Já renascem mil mãos não resignadas

Que brilham mesmo quando escureceu!



As horas, companheiras sequestradas

Em celas milenares de puro breu,

Conseguem resistir, sempre acordadas,



Na busca do que nunca se rendeu

E aguardam - rubra brasa! - as gargalhadas

Que o mais justo dos sonhos defendeu!


Maria João Brito de Sousa – 29.12.2013 – 13.32h

Imagem - Tipografia  Clandestina, José Dias Coelho
(retirada da página online do jornal Avante!)



sábado, 7 de dezembro de 2013

QUATRO DÉCIMAS PARA REIVINDICAR 1% PARA A CULTURA

Juntando-me ao criativo,
Nesta ingrata condição
De, sendo erudito ou não,
Nos legar caudal tão vivo,
Tão sem sombra de aditivo,
Que se assuma inexplicado
Por mais que lido e estudado,
E que exiba, enquanto passa,
Cintilações duma graça
Que justifique o seu estado,

Deixo esta exigência; a gota
Que, ao juntar-se ao franco jorro,
Diz bem mais que o que eu discorro
Quando o jorro se me esgota,
Inteiro e quase em derrota,
Mas que, na corrente, corre
Com força que não mais morre
E que, em jacto, a perpetua
Na perspectiva mais crua
De quem sobre “estros” discorre…

Pl`o rasto de todos esses
Que ao caudal se vão juntando
Quando, sem como nem quando,
Deixam proventos, benesses,
E, contra os próprios int`resses,
A lutar contra a corrente,
Ousam dar um passo em frente
Teimando em dar corpo à voz
Que, fruto de alguns de nós,
Se faz corpo em toda a gente,

Mantenho, a cada braçada
Contra a surdez dos demais
Que sendo, ou não, virtuais,
Nada escutem, mesmo nada,
Porque vão na peugada
Dessoutras frivolidades
Que desconcertam vontades,
A certeza - mais que certa! -,
De estar a nascente aberta
À criativa ousadia
Neste rio que, dia a dia,
Nos transporta à descoberta!



Maria João Brito de Sousa – 25.11.2013 – 19.54h


terça-feira, 19 de novembro de 2013

AOS QUE SE ACENDEM NA LUTA!

(Décimas)


Aos que se acendem na luta,
Aos que se apagam na fome,
Aos que vão morrendo em nome
De uns banais filhos da puta
Que lhes roubam, da labuta,
Quanto lucro os engordou,
Lá, onde o lucro os cegou
E onde a garra do poder
Que não pára de crescer
Cruamente se fincou

Sem que os direitos de um povo
Fossem, sequer, respeitados,
Garantidos, preservados,
Tudo a bem de um “mundo novo”
Que el` condena e que eu reprovo
Na palavra e nas acções
E até nas contradições
A que el` venha a estar sujeito
Pela mão de um burro eleito
E outros tantos aldrabões,

A todos esses, a quantos
Sem descanso resistirem
Mesmo se um dia caírem
Na dureza dos quebrantos
- que serão certos e  tantos… -
Mas  que nem por isso lentos,
Possam ficar sempre atentos
Sem mudar de direcção,
Sempre opondo a voz do não
Aos subornos truculentos,

À luta dos companheiros,
Àqueles que nas “barricadas”,
Sem espingardas, nem granadas,
Que no frente a frente, inteiros,
Com a força de guerreiros,
Contra tal barbaridade
Ergam presença e vontade,
Deixo os versos que escrever!
Depois, venha o que vier,
Terei estado entre os primeiros!




Maria João Brito de Sousa – 18.11.2013 - 21.02h


Tela de Álvaro Cunhal - Imagem retirada da página do Partido Comunista Português

sábado, 16 de novembro de 2013

RAZÕES PARA UMA BOA AUSCULTAÇÃO DA MISÉRIA SOCIAL ENDÉMICA

SEIS DÉCIMAS PARA BEM AUSCULTAR E DIAGNOSTICAR AS OCULTAS CAUSAS DA POBREZA SOCIAL ENDÉMICA, SEGUNDO A BOA PRÁTICA DA MEDICINA POPULAR





Com quantas lágrimas verte,
Com quanta dor te arrebanha,
Te aborda e depois se entranha,
Vem a miséria que, ao ver-te,
Te condena, te perverte,
Faz de ti farrapo humano,
Te lança no desengano,
Te desgraça, te desdenha,
Te transforma em coisa estranha
Pr`a melhor poder perder-te!

Vem, quando menos sonhavas,
Infiltrar-se, sorrateira,
Estudando a melhor maneira
De açambarcar quanto amavas,
De negar quanto aspiravas,
De minar-te a resistência
Quando, com estranha insistência,
Te obriga a ser`s quem não queres,
Desmentindo o que disseres
Pr`a tomar-te a dianteira… 

Muito poucos voltarão
A dar-te o valor que tens,
Que ela não rouba só bens,
Muda, inteira, a condição
E, além de tirar-te o pão,
Coloca-te uma etiqueta
Das que abundam na sarjeta
Dos humanos preconceitos
Onde alguns poucos “eleitos”
Encontram fama e razão…   

Quanto mais dúbia, mais duro
Se torna o jugo que impôs
Sobre a voz da tua voz
Quando aperta, furo a furo,
O cinto com que o esconjuro
Te abraçou nesse momento
Em que, sem outro argumento,
Te afastou de quanto amaste
E logo, em claro contraste,
Te impôs seu próprio futuro  

Pois assim que essa armadilha
Por elites preparada,
Tão fatal, tão bem estudada,
Que nem a própria partilha
Bloqueia os rumos que trilha,
Se estende tão triunfante,
Como se fora gigante
De bocarra escancarada
Cravando, pela calada,
A dentuça acutilante,


E, munida de mil manhas
Bem escondidinhas na manga,
Faz, de amigo, um  seu“capanga”
Com duas ou três patranhas
De opacidades bem estranhas,
Tu, nas malhas enrededado,
Já nem sabes pr`a que lado
Te empurra essa dura canga;
Se pr`á na fome ou se pr`á “tanga”
De quem, de ti, fez “coitado”!






Maria João Brito de Sousa – 15.11.2013 – 14.47h




sexta-feira, 8 de novembro de 2013

(CON)TRASTE - Seis décimas para desafiar a mo(r)te sem glosar mote algum




Voz do comando final
Destoutra rebelião,
Mesmo que eu diga que não,
Que te erga o punho e proteste
Negando que aqui vieste
Sem bater, nem dar sinal,
Pôr fim, a bem ou a mal,
A quanto sobre à função
De ir conjugando alma e mão
Em versos que me não deste
E, decerto, não escreveste,
Mas nos quais deixaste o sal, 

De nada me servirá,
Mas… que fazer, se esta vida
Me pede pr`a ser vivida
Toda do lado de cá?
Sei que, nem boa, nem má,
Esse teu ciclo cumprindo,
Não te orgulhas de ter vindo
E, à força de tão cumprida,
Tanto te faz que eu decida
Dizer que de ti prescindo… 

Alguns chamam-te destino,
Eu, muito pelo contrário,
Dar-te-ei, de modo vário,
Um nome menos latino,
Mais simples, mais pequenino,
Em jeito de desafio
Pois, já que morro de frio,
De ti cobro o estranho erário
De mudar-te o corolário
Nas contas que aqui desfio! 

Aqui deixo, à revelia
Da vontade que nem tens,
Como se escólio de bens,
O nome que me ocorreu
Pois, nem inferno, nem céu,
Antes sal de humana origem,
Me surge em estranha vertigem
Num verso a que não convéns
Já que terminá-lo vens
Quando o sei ser muito meu, 

Ponto final que resultas
De um percurso acidentado,
Circunstância, tempo errado,
Poder no qual nunca exultas,
(Sei que as pessoas mais… “cultas”
criticarão quanto digo,
mas, “isto” nasceu comigo
e trago-o tão bem pensado,
tão sentido e tão estudado,
que ouso e desdenho um tal p`rigo!) 

Coisa comum que magoas,
Banalidade inclemente
Que arrebatas são, doente,
Gentes mesquinhas e boas,
Que, num segundo, atordoas
E noutro te retiraste
De quanta dor cá deixaste,
Só sei que fico contente
Por saber fazer-te frente
Quando te chamo “(con)traste”!



Maria João Brito de Sousa – 08.11.2013 – 14.31