VISLUMBRES


View My Stats

domingo, 16 de fevereiro de 2014

VOZ

(Soneto em decassílabo heróico)


Há uma voz que chora, outra que canta,
Uma que amaldiçoa, outra, bendiz…
A esta, que me ecoa na garganta,
Mais nenhuma a desmente ou contradiz

Pois quando ela a si própria se suplanta
Ousando cantar mais do que o que eu quis,
A força com que ecoa é tanta, tanta,
Que eleva e me agiganta esta cerviz…

Que àquele que canta a luta, a voz não doa,
Nem falte, nunca, a força da razão
Que é suprema razão do que ela entoa

Pois, se a razão nos guia, a voz ressoa,
Junta-se à voz que canta em nosso irmão
E somam-se as razões por que ela ecoa!



Maria João Brito de Sousa – 11.02.2014 – 19.23h

Aos camaradas e amigos que desejaram que voz me não doesse, nem me faltasse a força! Obrigada!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

REVOLUÇÃO!

Em decassílabo heróico)


Se sofro, o que me importa, a mim, sofrer
Enquanto tantos mil, sofrendo mais,
Transformam cada grito, dos que eu der,
Num gemido que abafa outros iguais…

Se morro, o que me importa, a mim, dizer
Que a morte me chegou cedo demais,
Enquanto mil houver que irão morrer
De frio, de fome e falta de hospitais…

Mas… uma coisa sei; morro de pé!
Ninguém ficará surdo à voz de um só
Se ela projecta em mil aquilo que é

E, na corda impotente, o sujo nó,
Rebenta de repente, explode a fé
E outro Golias cai mordendo o pó!




Maria João Brito de Sousa – 11.02.2014 – 12,49h


O Quarto Estado - Pelizza da Volpedo

sábado, 8 de fevereiro de 2014

ESBOÇO CRIATIVO




(Em decassílabo heróico)


… e neste fim de Tejo em que me vivo,
Onde, entre verbo e dor, sei ser feliz,
Hei-de ser sempre o fruto do que fiz,
Do muito que senti, do que me privo

Se teimo em rejeitar, quando me esquivo,
Um verso que não venha da matriz
Ou negue exactamente quanto eu quis
Por não ser mais que um frágil lenitivo

E atendo ao que jamais será cativo,
Ao que é reprodução do som nativo
Que, em ondas, se espraiou desde a raiz

Porque, entre sopro e forma, eu, mero crivo,
Não traço mais que um esboço criativo
Dos versos que o poema a mim me diz…



Maria João Brito de Sousa – 28.01.2014 – 21.50h

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SONETO A UM ANTIGO/NOVO SONHO

(Em decassílabo heróico)


Eu trago um sonho antigo, omnipresente,
Como um grito vermelho no meu peito
Erguido contra a voz, que nunca aceito,
De quem a torna infame ou prepotente!

Mais alto elevo o sonho transparente,
Mais longe o levo intacto e sem defeito,
E é com el` que partilho o duro leito
Que cabe a quem não sonha impunemente…

Razões? Há tantas mil pr`a tê-lo aceso
E tantas mais crescendo, a dar-lhes peso,
Se ousamos ver a crua realidade

De quem já descobriu, mesmo indefeso,
Que um sonho, se for livre, é morto ou preso
Tão só porque evocava a liberdade!




Maria João Brito de Sousa – 04.01.2014 – 18.16h

domingo, 29 de dezembro de 2013

SONETO A UMA LONGA, LONGA INVERNIA


(Em decassílabo heróico)



Os dias são tão curtos, camaradas…

O sol começa a pôr-se… e mal nasceu

Da escuridão que esconde as madrugadas

Que Abril tão claramente prometeu…



Mas sonha-se e das cinzas apagadas,

Lampejando qual luz que não morreu,

Já renascem mil mãos não resignadas

Que brilham mesmo quando escureceu!



As horas, companheiras sequestradas

Em celas milenares de puro breu,

Conseguem resistir, sempre acordadas,



Na busca do que nunca se rendeu

E aguardam - rubra brasa! - as gargalhadas

Que o mais justo dos sonhos defendeu!


Maria João Brito de Sousa – 29.12.2013 – 13.32h

Imagem - Tipografia  Clandestina, José Dias Coelho
(retirada da página online do jornal Avante!)



sábado, 7 de dezembro de 2013

QUATRO DÉCIMAS PARA REIVINDICAR 1% PARA A CULTURA

Juntando-me ao criativo,
Nesta ingrata condição
De, sendo erudito ou não,
Nos legar caudal tão vivo,
Tão sem sombra de aditivo,
Que se assuma inexplicado
Por mais que lido e estudado,
E que exiba, enquanto passa,
Cintilações duma graça
Que justifique o seu estado,

Deixo esta exigência; a gota
Que, ao juntar-se ao franco jorro,
Diz bem mais que o que eu discorro
Quando o jorro se me esgota,
Inteiro e quase em derrota,
Mas que, na corrente, corre
Com força que não mais morre
E que, em jacto, a perpetua
Na perspectiva mais crua
De quem sobre “estros” discorre…

Pl`o rasto de todos esses
Que ao caudal se vão juntando
Quando, sem como nem quando,
Deixam proventos, benesses,
E, contra os próprios int`resses,
A lutar contra a corrente,
Ousam dar um passo em frente
Teimando em dar corpo à voz
Que, fruto de alguns de nós,
Se faz corpo em toda a gente,

Mantenho, a cada braçada
Contra a surdez dos demais
Que sendo, ou não, virtuais,
Nada escutem, mesmo nada,
Porque vão na peugada
Dessoutras frivolidades
Que desconcertam vontades,
A certeza - mais que certa! -,
De estar a nascente aberta
À criativa ousadia
Neste rio que, dia a dia,
Nos transporta à descoberta!



Maria João Brito de Sousa – 25.11.2013 – 19.54h


terça-feira, 19 de novembro de 2013

AOS QUE SE ACENDEM NA LUTA!

(Décimas)


Aos que se acendem na luta,
Aos que se apagam na fome,
Aos que vão morrendo em nome
De uns banais filhos da puta
Que lhes roubam, da labuta,
Quanto lucro os engordou,
Lá, onde o lucro os cegou
E onde a garra do poder
Que não pára de crescer
Cruamente se fincou

Sem que os direitos de um povo
Fossem, sequer, respeitados,
Garantidos, preservados,
Tudo a bem de um “mundo novo”
Que el` condena e que eu reprovo
Na palavra e nas acções
E até nas contradições
A que el` venha a estar sujeito
Pela mão de um burro eleito
E outros tantos aldrabões,

A todos esses, a quantos
Sem descanso resistirem
Mesmo se um dia caírem
Na dureza dos quebrantos
- que serão certos e  tantos… -
Mas  que nem por isso lentos,
Possam ficar sempre atentos
Sem mudar de direcção,
Sempre opondo a voz do não
Aos subornos truculentos,

À luta dos companheiros,
Àqueles que nas “barricadas”,
Sem espingardas, nem granadas,
Que no frente a frente, inteiros,
Com a força de guerreiros,
Contra tal barbaridade
Ergam presença e vontade,
Deixo os versos que escrever!
Depois, venha o que vier,
Terei estado entre os primeiros!




Maria João Brito de Sousa – 18.11.2013 - 21.02h


Tela de Álvaro Cunhal - Imagem retirada da página do Partido Comunista Português