VISLUMBRES


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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

UM SONETO MANUSCRITO

Debulho-me em palavras… nunca choro
Senão estes sinais de tinta preta
Que traço quase sempre em linha recta,
Cujo rumo me escapa e nem decoro…

Se pelas gargalhadas me demoro,
De novo outros sinais, traçando a meta,
Se impõem mal o riso me intercepta
E, atrás, surgirão mais, fazendo coro…

Se sinto – e tudo sinto intensamente! –,
São aos milhares, pulando, à minha frente,
Esses pequenos signos do sentir

Que imprimem no papel, profusamente,
As mesmas emoções que tanta gente,
Sem espaço pr`ás viver, deixou fugir…



Maria João Brito de Sousa – 17.10.2012 – 19.41h

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

SONETO "POR ACASO"

Abreviada a voz, repenso o gesto
E ressurge a palavra indesmentida
Exactamente aonde a mão estendida
Recolhe o claro fruto e aparta o resto

Sorrio enquanto estendo o velho cesto
Na direcção da coisa pressentida
E vislumbro, entre folhas, bem escondida,
A forma de um soneto franco, honesto

Assim contemplo, colho e guardo acasos,
Esperando cada um de olhos já rasos,
Cumpridos sem temor, sem loucas pressas

E, garanto, esse acaso então parece
Estar pronto a responder-me à estranha prece
Sem me ter feito, a mim, quaisquer promessas…


Maria João Brito de Sousa – 04.10.2012 – 16.06h

terça-feira, 4 de setembro de 2012

METÁFORA - O Manifesto


Eu digo-te
que o sol floresce limpo
sobre o estrume das aparências
e que as palavras são casas nas cidades da voz

digo-te
que as ruas são mãos a repousar,
que as coisas de pedra são canções
e que as canções são luas, de tão brancas…

dir-te-ei,
vez por outra,
que as plantas são mulheres e homens
cansados da colheita improvável,
que os dias – todos eles –
são movimento,
que as noites são o esconderijo
dos sonhos à espera de acordar
e que os muros são pontes entre agora e depois

falar-te-ei de passos sem distância,
de espaços sem medida,
de memórias sem tempo
e de gente sem medo de morrer,
mas jamais me ouvirás falar da renúncia
enquanto o murmúrio me for permitido
na cidade da voz libertada

Também a metáfora se come, se bebe
e não sabe render-se enquanto viva 



Maria João Brito de Sousa – 03.09.2012 – 18.12h


Imagem retirada do site do jornal "Avante!" - Guernica - Pablo Picasso 1937

sábado, 25 de agosto de 2012

SONETO PARA... MORDER!



Em verdade só sou quando me dou,
Assim que sol e mar fervem cá dentro
Transmutando-se em corpo e alimento
Do poema/animal que me habitou…

Palavras, coisas vivas que se comem,
São frutas que se oferecem se as procuro
Numa fome perpétua que não curo
Enquanto outras palavras me não domem

Mas é por esta língua, a que pertenço,
Que sinto, que, por vezes, também penso,
Que mordo, como tantos animais,

Sem medo do momento insano, intenso,
Em que abocanho um verso… e quase o venço
Esquecendo a derrocada dos demais…




Maria João Brito de Sousa – 23.08.2012 – 19.19h







Maria João Brito de Sousa – 23.08.2012 – 19.19h



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

CAPITALISMO - Soneto de Onze Sílabas Métricas

Sobram-lhe as migalhas dessoutra fartura
Que o sistema cria, que o cinismo inventa,
Do pouco que fia mas que o não sustenta
Porque se alimenta só de “dita”… e “dura”

Sobejam-lhe as rendas da falsa candura
Que, qual maré alta, num crescendo, aumenta
Pr`adornar uns quantos, porque a “plebe” aguenta
Tais desequilíbrios desta arquitectura…

Se contra mim falo porque uma injustiça
Tudo o que não calo foi trazendo à liça
Quando nada faço, tão pouco produzo

E levanto o punho como se o fizesse…
Mais saudável fora, mais força eu tivesse,
Mais protestaria contra aqueles que acuso!




Maria João Brito de Sousa – 02.08.2012 – 15.58h



IMAGEM -  Blind Man`s Meal - Pablo Picasso, 1903



 NOTA DA AUTORA -


Este soneto tem um erro métrico. O último verso "Mais protestaria contra aqueles que acuso!" tem doze e não onze sílabas poéticas. Deixo-o tal como está pois, na leitura, o erro é imperceptível e até contribui para a unidade melódica do poema, mas NÃO está  correcto

sábado, 28 de julho de 2012

PINTURALTERNATIVA

A pena já me dói… que pena tenho
Que a pena, por doer, me perca assim…
E desperta o poema aceso em mim
Assim que pouso a pena e me detenho…

Por cada verso escrito, outro desenho,
E, assim que o terminar, todo um jardim
Como se esse poema fosse, enfim,
A tela que, magoada, então desdenho…

Cada palavra, um plástico murmúrio
A desenhar-se em flor num belo antúrio
Da cor que eu decidir nesse momento

Porque a gestualidade, embora presa,
Não desdenha outras formas de beleza
Nem me acusa afirmando que nem tento…






Maria João Brito de Sousa – 23.07.2012 – 18.49h