(Em decassílabo heróico)
Pr`a quê cantar a jovem Primavera
Que me não traga, acesa, a claridade
Que emite, lá no alto, a rubra esfera
Assim que se ergue e brilha em liberdade?
De que terá servido a longa espera
Se a chuva me roubar, pela metade,
Um céu que esconde um sol que mal tempera
Um dia que nasceu sem qualidade?
E, sob intensa chuva, a tarde fria
De que hoje vou falar, nem sei porquê,
Faz crer que o próprio verso se arrepia
Se, na estrofe final, disser que crê
Que mais depressa brilha um novo dia
Pr`a quem, no que se põe, tanto mal vê…
Maria João Brito de Sousa – 27.03.2014 – 17.37h
sexta-feira, 28 de março de 2014
sexta-feira, 21 de março de 2014
ESPELHO MÁGICO, ESPELHO MEU...
Não era a minha face
que via nesse espelho...
era a de uma outra Alice
no país dos pesadelos
- a que se transmutava
ao sabor dos cogumelos
e sabia dar corda
ao relógio do coelho... -,
Não era a minha face, com certeza!
Era,
talvez,
a da Menina-do-Capuz-Vermelho
apaixonada por um lobo velho,
fugindo com ele do caçador malvado
- a avozinha
comprava os bolos no supermercado
e
todos os dias
dançava rock and roll na penumbra do quarto -...
da Bela-Adormecida
que nunca mais conseguia adormecer
e se deitava a escrever
cartas de jogo à Bruxa-Arrependida...
da Branca-de-Neve dos sete-mil-anões
devorando maçãs-desencantadas,
tentando acreditar
que nem tudo são desilusões...
da Princesa-dos-Sapatinhos-de-Cristal
a vir da discoteca às cinco e tal...
do Pinóquio,
sorrindo , no ventre da baleia,
ou
- quem o sabe? - da Pequena-Sereia,
mas nunca a minha face!
Não era a minha face verdadeira!
Maria João Brito de Sousa - 1992/3
Imagem retirada do Google
que via nesse espelho...
era a de uma outra Alice
no país dos pesadelos
- a que se transmutava
ao sabor dos cogumelos
e sabia dar corda
ao relógio do coelho... -,
Não era a minha face, com certeza!
Era,
talvez,
a da Menina-do-Capuz-Vermelho
apaixonada por um lobo velho,
fugindo com ele do caçador malvado
- a avozinha
comprava os bolos no supermercado
e
todos os dias
dançava rock and roll na penumbra do quarto -...
da Bela-Adormecida
que nunca mais conseguia adormecer
e se deitava a escrever
cartas de jogo à Bruxa-Arrependida...
da Branca-de-Neve dos sete-mil-anões
devorando maçãs-desencantadas,
tentando acreditar
que nem tudo são desilusões...
da Princesa-dos-Sapatinhos-de-Cristal
a vir da discoteca às cinco e tal...
do Pinóquio,
sorrindo , no ventre da baleia,
ou
- quem o sabe? - da Pequena-Sereia,
mas nunca a minha face!
Não era a minha face verdadeira!
Maria João Brito de Sousa - 1992/3
Imagem retirada do Google
quarta-feira, 12 de março de 2014
VARIAÇÕES SOBRE O TEMA "UMA CASA PORTUGUESA" - Décimas
Nascem selvagens, libertos,
Vindos de coisa nenhuma
Com asas feitas de espuma,
Nos momentos mais incertos
E, se engendram desconcertos,
Trazem razões que, uma a uma,
Vão dissipando esta bruma
Pr`a deixar-nos bem despertos
Pois, se de razões cobertos,
Quem nos seus versos se assuma
E com muitos os reparta
Sobre mesa igualitária
Sem intenção mercenária,
Tirará, da mesa farta,
Quanto o tirano descarta,
Numa ânsia totalitária
De refeição bem mais vária…
E, venha Zé, venha Marta,
Venha “encartado”, ou “sem carta”,
Que a festa é mais necessária
Do que muita gente pensa
Quando não falta na mesa,
Do poema, a clara franqueza
Que a comunhão torna imensa
Pois, mesmo tendo pertença,
Traga alegria ou tristeza,
Nunca é fútil nem burguesa
Porque em si própria condensa
Quanto um povo não dispensa
Se a casa for… portuguesa!
Maria João Brito de Sousa – 12.03.2014 – 17.27h
Vindos de coisa nenhuma
Com asas feitas de espuma,
Nos momentos mais incertos
E, se engendram desconcertos,
Trazem razões que, uma a uma,
Vão dissipando esta bruma
Pr`a deixar-nos bem despertos
Pois, se de razões cobertos,
Quem nos seus versos se assuma
E com muitos os reparta
Sobre mesa igualitária
Sem intenção mercenária,
Tirará, da mesa farta,
Quanto o tirano descarta,
Numa ânsia totalitária
De refeição bem mais vária…
E, venha Zé, venha Marta,
Venha “encartado”, ou “sem carta”,
Que a festa é mais necessária
Do que muita gente pensa
Quando não falta na mesa,
Do poema, a clara franqueza
Que a comunhão torna imensa
Pois, mesmo tendo pertença,
Traga alegria ou tristeza,
Nunca é fútil nem burguesa
Porque em si própria condensa
Quanto um povo não dispensa
Se a casa for… portuguesa!
Maria João Brito de Sousa – 12.03.2014 – 17.27h
sábado, 8 de março de 2014
A MULHER INTERROMPIDA
Não foi assim tão antigamente...
Não foi há mais que um tempo
mais duas metades de dois tempos meios,
que uma voz, amiga certamente,
embora longínqua, perguntou por mim
quando eu, de confusa, nem me conhecia...
Sou a mulher do meu homem,
respondia,
e a voz insistia:
- Mulher, quem és tu?
- Sou a mãe de um filho que não mora cá
e de três meninas que me querem muito,
apesar da culpa, apesar de tudo...
E a voz repetia:
- Mulher, quem és tu?
Sei que juraria que lhe não mentia
portanto insistia:
- Ninguém, senão mãe, apesar do luto!
Não cedia a voz, quando perguntava
do Espaço, do Tempo, de outras coordenadas:
- Ó mãe dos teus filhos, diz-me quem és tu!
Onde moram as tuas horas carnais?
Onde guardas o corpo quando sais
pr´a voar em busca do filho perdido?
Que fazem tuas mãos?
Que estrelas tão negras trazes nesse olhar?
Que morte tão estranha te veio buscar
esquecendo o teu corpo entre os teus irmãos?
Lá lhe respondia
sem me aperceber
que me descrevia sem me conhecer:
- Sou a mulher do meu homem
porque a mãe das minhas crias!
Procuro o que se perdeu,
o que morreu mal nasceu,
o que mais quero encontrar!
Mas a voz continuava
sem parar de perguntar:
- Mulher, que é feito de ti?
Só a ti tens de encontrar!
Então procurei-me em mim
e vi que não estava lá...
Decidi correr o mundo
desde o abismo profundo
às mais altas cumeadas;
nadei no Ganges, no Nilo,
desci ao ventre tranquilo
das cavernas ignoradas...
Corri terra, mar e céu,
muito além do mundo inteiro!
Foi então que, de repente,
para grande espanto meu,
me encontrei num frente a frente
com um corpo nada alheio
àquela procura urgente
pois nele coube, exactamente,
a chama acesa em meu peito
e, juro,
foi então
que, pela primeira vez
em toda a minha vida,
me ri da minha imagem denegrida,
desdenhei não ser compreendida
e, inteira, me orgulhei da condição
de ser uma mulher interrompida!
Maria João Brito de Sousa – Verão 1992
(Revisto e ligeiramente reformulado)
Imagem - Bride of the Wind - Oskar Kokoscka
Não foi há mais que um tempo
mais duas metades de dois tempos meios,
que uma voz, amiga certamente,
embora longínqua, perguntou por mim
quando eu, de confusa, nem me conhecia...
Sou a mulher do meu homem,
respondia,
e a voz insistia:
- Mulher, quem és tu?
- Sou a mãe de um filho que não mora cá
e de três meninas que me querem muito,
apesar da culpa, apesar de tudo...
E a voz repetia:
- Mulher, quem és tu?
Sei que juraria que lhe não mentia
portanto insistia:
- Ninguém, senão mãe, apesar do luto!
Não cedia a voz, quando perguntava
do Espaço, do Tempo, de outras coordenadas:
- Ó mãe dos teus filhos, diz-me quem és tu!
Onde moram as tuas horas carnais?
Onde guardas o corpo quando sais
pr´a voar em busca do filho perdido?
Que fazem tuas mãos?
Que estrelas tão negras trazes nesse olhar?
Que morte tão estranha te veio buscar
esquecendo o teu corpo entre os teus irmãos?
Lá lhe respondia
sem me aperceber
que me descrevia sem me conhecer:
- Sou a mulher do meu homem
porque a mãe das minhas crias!
Procuro o que se perdeu,
o que morreu mal nasceu,
o que mais quero encontrar!
Mas a voz continuava
sem parar de perguntar:
- Mulher, que é feito de ti?
Só a ti tens de encontrar!
Então procurei-me em mim
e vi que não estava lá...
Decidi correr o mundo
desde o abismo profundo
às mais altas cumeadas;
nadei no Ganges, no Nilo,
desci ao ventre tranquilo
das cavernas ignoradas...
Corri terra, mar e céu,
muito além do mundo inteiro!
Foi então que, de repente,
para grande espanto meu,
me encontrei num frente a frente
com um corpo nada alheio
àquela procura urgente
pois nele coube, exactamente,
a chama acesa em meu peito
e, juro,
foi então
que, pela primeira vez
em toda a minha vida,
me ri da minha imagem denegrida,
desdenhei não ser compreendida
e, inteira, me orgulhei da condição
de ser uma mulher interrompida!
Maria João Brito de Sousa – Verão 1992
(Revisto e ligeiramente reformulado)
Imagem - Bride of the Wind - Oskar Kokoscka
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
HOLOGRAMA
(Soneto “de coda” em decassílabo heróico)
Conserto o desconcerto, acerto o passo,
Pinto, esculpindo o verso que me ocorre…
As coisas que aqui faço, ou que não faço,
Transcendem sempre a carne que me cobre…
Mas, se à própria razão retiro o braço
Se o gesto me preguiça, a mão não corre,
Se, já rendida á dor, verga ao cansaço,
Perco o rumo à razão que me socorre…
Que me não faltes, mão dos gestos leves,
Que esculpes, que constróis, que remodelas,
Que, sem hesitações, aqui te atreves
A dissecar miséria e coisas belas
E a arder nos mil pavios do que não deves!
… porque há quem vá negar-te a luz das velas,
Quem queira dar-te fama e voz, tão breves
Que ocultem o sentido ao barro, às telas,
Para honrar com néon quanto nem escreves…
Maria João Brito de Sousa – 09.02.2014 – 17.07h
Imagem - "Genesis" - Jacob Epstein
domingo, 16 de fevereiro de 2014
VOZ
(Soneto em decassílabo heróico)
Há uma voz que chora, outra que canta,
Uma que amaldiçoa, outra, bendiz…
A esta, que me ecoa na garganta,
Mais nenhuma a desmente ou contradiz
Pois quando ela a si própria se suplanta
Ousando cantar mais do que o que eu quis,
A força com que ecoa é tanta, tanta,
Que eleva e me agiganta esta cerviz…
Que àquele que canta a luta, a voz não doa,
Nem falte, nunca, a força da razão
Que é suprema razão do que ela entoa
Pois, se a razão nos guia, a voz ressoa,
Junta-se à voz que canta em nosso irmão
E somam-se as razões por que ela ecoa!
Maria João Brito de Sousa – 11.02.2014 – 19.23h
Aos camaradas e amigos que desejaram que voz me não doesse, nem me faltasse a força! Obrigada!
Há uma voz que chora, outra que canta,
Uma que amaldiçoa, outra, bendiz…
A esta, que me ecoa na garganta,
Mais nenhuma a desmente ou contradiz
Pois quando ela a si própria se suplanta
Ousando cantar mais do que o que eu quis,
A força com que ecoa é tanta, tanta,
Que eleva e me agiganta esta cerviz…
Que àquele que canta a luta, a voz não doa,
Nem falte, nunca, a força da razão
Que é suprema razão do que ela entoa
Pois, se a razão nos guia, a voz ressoa,
Junta-se à voz que canta em nosso irmão
E somam-se as razões por que ela ecoa!
Maria João Brito de Sousa – 11.02.2014 – 19.23h
Aos camaradas e amigos que desejaram que voz me não doesse, nem me faltasse a força! Obrigada!
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
REVOLUÇÃO!
Em decassílabo heróico)
Se sofro, o que me importa, a mim, sofrer
Enquanto tantos mil, sofrendo mais,
Transformam cada grito, dos que eu der,
Num gemido que abafa outros iguais…
Se morro, o que me importa, a mim, dizer
Que a morte me chegou cedo demais,
Enquanto mil houver que irão morrer
De frio, de fome e falta de hospitais…
Mas… uma coisa sei; morro de pé!
Ninguém ficará surdo à voz de um só
Se ela projecta em mil aquilo que é
E, na corda impotente, o sujo nó,
Rebenta de repente, explode a fé
E outro Golias cai mordendo o pó!
Maria João Brito de Sousa – 11.02.2014 – 12,49h
O Quarto Estado - Pelizza da Volpedo
Se sofro, o que me importa, a mim, sofrer
Enquanto tantos mil, sofrendo mais,
Transformam cada grito, dos que eu der,
Num gemido que abafa outros iguais…
Se morro, o que me importa, a mim, dizer
Que a morte me chegou cedo demais,
Enquanto mil houver que irão morrer
De frio, de fome e falta de hospitais…
Mas… uma coisa sei; morro de pé!
Ninguém ficará surdo à voz de um só
Se ela projecta em mil aquilo que é
E, na corda impotente, o sujo nó,
Rebenta de repente, explode a fé
E outro Golias cai mordendo o pó!
Maria João Brito de Sousa – 11.02.2014 – 12,49h
O Quarto Estado - Pelizza da Volpedo
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